Se tornar-se não é chegar numa versão final sua, então quem é esse "eu" que não para de mudar?

Talvez a gente passe boa parte da vida tentando responder quem somos. Mas, antes mesmo de conseguir responder isso, já existe muita coisa respondendo por nós.

"Você é assim."
"Você sempre foi desse jeito."
"Isso não é pra você."
"Você não leva jeito."
"Você é forte."
"Você é sensível."
"Você é difícil."
"Você é boazinha."

E, pouco a pouco, a gente vai ocupando esses lugares. Alguns porque escolheram por nós. Outros porque precisamos pertencer. Outros porque, em algum momento, acreditamos que aquela era a única forma possível de ser.

E talvez seja aí que a pergunta fique mais interessante: quanto de quem eu sou, de fato, fui eu quem escolheu?

Porque existe um eu que construímos. Mas também existe um eu que foi construído a partir do olhar do outro.

E o problema não é ter sido atravessada por essas expectativas. O problema é acreditar que elas são definitivas.

Porque para mudar você não precisa deixar de ser quem é. Você pode só perceber que estava vivendo dentro de uma definição que já não cabe mais.

E talvez tornar-se seja justamente isso: não encontrar, finalmente, quem você é. Mas continuar podendo perguntar: "quem eu posso ser?"

Porque talvez não exista uma versão final de nós.

Existe movimento. Existe escolha. Existe aquilo que o outro colocou em nós. E existe também o que fazemos com aquilo que recebemos.

Tornar-se não é chegar.

É continuar se construindo. Sempre.

Athenize.
Torne-se.